45 anos – Radamés Silva

Radamés Silva

“Minha vida sempre esteve ligada intimamente com a educação. Sendo filho, sobrinho e afilhado de professoras, comecei a lecionar na escola da comunidade rural, vizinha à casa em que morava, construída em 1967 pelo meu avô paterno. Com apenas 11 anos, substituía licenças das professoras desta escola. Cresci ouvindo as conversas sobre a situação da educação, participava e contribuía nas festas escolares e, até nas minhas férias, preferia ajudar nas matrículas e históricos escolares a brincar.

Cheguei a São Paulo no dia 18 de dezembro de 2009. Passei as férias de fim de ano e os primeiros meses de 2010 procurando emprego em design, sem nenhuma resposta positiva. Enquanto não aparecia um emprego na área pretendida, fui aprovado como aluno especial no programa de pós-graduação em Artes Visuais da ECA/USP. O tempo passava e o meu primeiro emprego na grande São Paulo foi de telemarketing e, assim, solicitei uma licença da prefeitura na qual lecionava, na Paraíba.

Ao final do curso como aluno especial, a professora Christina Rizzi me convidou para trabalhar como educador de uma exposição. Foi então que uma colega do educativo me trouxe um contato divulgado no CAP/ECA/USP para uma vaga de auxiliar de Arte na unidade do Colégio Pentágono, em Alphaville. Enviei meu currículo e fui convocado, iniciando no dia 23 de setembro daquele ano. Para quem não conhecia São Paulo, encontrar esse colégio lá em Santana de Parnaíba foi outra aventura, um extremo da realidade que vivia na Paraíba.
Por várias vezes, a saudade do Muquém, dos meus alunos e dos meus amigos aumentava a vontade de voltar para casa. Ao final do ano de 2010, fui aprovado no mestrado da ECA/USP e, após três meses como auxiliar da disciplina de Arte e de Infoeducação, fui promovido a infoeducador.

Durante estes quase sete anos de São Paulo, os caminhos percorridos nessa cidade e, principalmente, nos corredores e salas de aula do Colégio Pentágono, na verdade, conduziram-me ao encontro de mim mesmo. Uma profunda viagem de valores interpessoais, que solidificaram o meu chão e definiram os meus horizontes, pois, hoje, tenho certeza, sou Professor. O tempo dedicado aos estudos, às visitas aos Museus, Galerias e Exposições, às viagens para divulgar e publicar minhas pesquisas acadêmicas foi proporcionado por esta única escola que conheço em São Paulo, por acreditar em meu potencial e me dar condições de construir tudo isso.

Entrei no Pentágono para ser apenas professor auxiliar de Arte, mas enveredei pelos caminhos das histórias e narrativas de minha vida, justamente onde elas poderiam ser mais encantadoras, na Educação Infantil. Ao longo desse tempo, despertei e fortaleci minhas raízes ao falar da cultura paraibana para os meus alunos, mas, entre tantos momentos e imagens, quero aqui destacar um pequeno teatro que apresentamos no ano de 2011, na Semana do Folclore, no qual fiz o papel do Lobo Mau. E, a partir da observação dos meus alunos, surgiram os questionamentos para a construção da minha atual pesquisa de doutorado.

Após apresentação da história, tirei a roupa de lobo e quando passava na turma dos alunos de 5 anos de idade, todos gritaram numa euforia para desvendar com a maior de todas as certezas: “-Tio Rada, o lobo era você! Ou, você era o lobo! ” E claro que na hora eu neguei. Até que a professora me aconselha revelar tal mistério para que assim, eles se sentissem orgulhosos. Mas para não entregar tão de “bandeja”, resolvi perguntar como eles adivinharam que o lobo era eu. E uma aluna responde: “-Ué, porque quando o lobo tirou a luva a gente viu a sua mão Tio Rada”. Pronto! E o mistério se desfez.

Nesse mesmo ano, o lobo foi o personagem com a função de mestre de cerimônia para o projeto da turma de 2 anos de idade. E em uma certa manhã, visitei a sala deles e encontrei o aluno Guilherme pintando sua pele do braço com canetinha. Fiquei curioso e perguntei por quê? Ele respondeu que era pele de lobo! Isso me encantou, porque além da solução criativa e tão simples de imitar os pelos do lobo, ele também queria ser o lobo.

E até hoje, todos os dias, é sempre assim. Sinto-me muito bem acolhido pelas crianças que, quando caminho pelos corredores do Colégio, gritam em grupo meu nome para dizer apenas um oi ou bom dia, como se quisessem dizer: “- olha eu aqui Rada!”. Sempre mostrando alguma novidade, contando alguma história de casa ou de uma viagem, apontando um tênis novo que está calçando. Se com minhas histórias eu os encanto, na verdade, são eles que me encantam e me engrandecem muito mais, porque sinto que sou aceito no seu mundo e assim, serei sempre um curioso a estudar a cultura da infância.”

Radamés Silva, Coordenador de Infoeducação do Colégio Pentágono