Há tempos, discute-se sobre possíveis caminhos para a ressignificação do conceito de Biblioteca e sua maneira de existir na contemporaneidade. Dentro do espaço escolar, esse questionamento também é latente, uma vez que as informações contidas em livros de determinados gêneros muitas vezes são obsoletas e não dão conta de saciar os questionamentos dos alunos acerca de temas da atualidade.

Para além deste fato, também há de se convir que os nossos alunos são socializados desde sempre junto a inúmeros dispositivos informacionais e tecnológicos, o que nos mostra que um acervo composto apenas por livros não abarcará a potencialidade das diversas linguagens com as quais nos relacionamos, comunicamos, formamos, expressamos e aprendemos.

Foi justamente a partir dessa problemática que o Colégio Pentágono implantou o conceito de infoeducação, de Edmir Perrotti, em suas bibliotecas, que aqui chamamos de Estação do conhecimento. E é dentro desse espaço que realizo as minhas práticas educacionais. Portanto, sou uma infoeducadora e faço a mediação da relação entre os alunos e toda a informação contida nesse espaço (utilizando os mais diversos dispositivos informacionais e linguagens).

Dentro desse projeto, construímos uma espécie de ponte entre os conteúdos trabalhados em sala de aula e a Biblioteca, além de estabelecermos conexões com os acontecimentos que se passam além dos muros da Escola. Como uma educadora para a informação, busco salientar em minhas aulas alguns dos valores do Colégio Pentágono, que são: Formação de um cidadão do mundo, Excelência acadêmica e Ser feliz na escola.

Dentre as mais diversas linguagens utilizadas em minha prática, aqui enfocarei a “Arte de contar histórias” e a sua importância no desenvolvimento dos alunos. É válido ressaltar que, dentro do cotidiano das aulas de Infoeducação, essa é a experiência de aprendizagem que as crianças mais gostam. Por mais incrível que possa parecer, não há iPad, computador ou curta-metragem que desperte o brilho no olhar que uma narração de histórias provoca nos alunos. Independentemente da faixa etária, em todo o Ensino Fundamental I, o encantamento é evidente.

Diferentemente do que muitos acreditam, a narração de histórias não é uma apresentação teatral. O contador de histórias não é um ator, é um narrador, alguém que conduz o ouvinte a adentrar em sua subjetividade, criando dentro de si, de uma maneira muito particular, a paisagem, os personagens, as cores e todos os detalhes que uma narrativa nos apresenta. Desse modo, mesmo que um grupo inteiro ouça uma mesma história, cada ouvinte “visualizará” de um modo muito íntimo os elementos que a compõem.

O resgate dessa arte milenar – transmitida de geração a geração, nas mais diversas sociedades – para dentro da escola é muito importante, não apenas para nos conectarmos com a nossa ancestralidade ou com as especificidades das nossas características humanas, mas também para estimular e incentivar a escuta, a criatividade, a comunicação, a capacidade imaginativa e a relação subjetiva dos alunos entre o “eu” e o “mundo”.

Dentro desses processos de aprendizagem, busco a construção de uma educação crítica democrática. Ou seja, práticas educativas em que todos se sintam representados. Ao transportar essa ideia para o âmbito da Literatura Infantil, pensando na construção de um “cidadão do mundo”, é preciso ter cautela e criticidade na escolha do repertório. Faz-se necessária uma reflexão sobre “Quais histórias precisam ser contadas”.

Se pensarmos em histórias de Reis e Rainhas, não há como negar a influência da cultura de massas na construção do estereótipo desses personagens. A grande maioria de nós, ao ouvirmos uma história dessas, enxergaria um rei gordo, barrigudo e branco, uma princesa invariavelmente loira e magra. Mas, para tornarmos nossos alunos cidadãos críticos, é preciso desconstruir esses padrões e elaborar propostas educacionais que contribuam para quebrar as imagens e ideias estereotipadas tão propagadas em nossa sociedade.

O Brasil é um país diverso, multicultural e, mesmo em uma escola particular, essa diversidade – de alguma maneira –  está presente. Por esse motivo, é preciso que propaguemos contos em que todos os nossos alunos se vejam ali, para que as mais diversas belezas e maneiras de existir passem a fazer parte do imaginário das nossas crianças. Para que ninguém se sinta excluído e para que cresçam desprovidos de preconceitos e de visões discriminatórias sobre determinados grupos de pessoas.

Proporcionar o encantamento e o prazer de estar na escola com uma história indígena ou africana faz com que aquele ouvinte entre em contato com esse universo, traz a empatia à tona, por meio da Arte. Valorizar um conto africano, contar histórias de Reis e Rainhas da pele negra como a noite, desconstrói a visão de subalternidade dos negros, tão presente em nossa sociedade. Dar visibilidade às nossas grandes escritoras, como Cecilia Meireles e Ana Maria Machado, dentre outras, é mostrar aos alunos que uma mulher pode ocupar o lugar que ela quiser em nossa sociedade.

Há muitas histórias que necessitam ser contadas, há muita coisa que precisa ser transformada e podemos utilizar a Arte para levar as crianças à luz dessa construção de um mundo mais igualitário, justo e respeitoso para todos. Se formamos cidadãos do mundo, precisamos saber qual é o mundo que queremos. O que precisamos transformar? Que vozes precisamos escutar? E possibilitar – com muita ludicidade e cuidado – o encontro dos nossos alunos com essas questões, estabelecendo, assim, a construção e o fortalecimento da empatia, da escuta, da criticidade, do olhar aguçado, da criatividade e o aprofundamento e a maturação da comunicação.

Iara Viana Mouco
Professora de Infoeducação do Ensino Fundamental I do Colégio Pentágono