A adolescência é uma fase de transição fundamental para a formação da personalidade, marcada por descobertas, desafios e muita curiosidade. No entanto, nem sempre as experimentações que acontecem nesse período são positivas. Uma das que mais preocupa as famílias é o uso de drogas. Foi pensando nisso que o Núcleo de Orientação Educacional (NOE) escolheu o tema da edição de maio dos Encontros entre Família e Escola: “Consumo de drogas na adolescência: uma visão neurocientífica”. Para orientar e esclarecer as dúvidas dos pais dos alunos do 5º ano do Ensino Fundamental I à 3ª série do Ensino Médio, o Colégio contou com um ciclo de palestras realizado nas três unidades por Douglas Motta Calderoni, médico psiquiatra com especialização em dependência química. As turmas dos 6ºs anos também participaram de bate-papos sobre o assunto. Na entrevista abaixo, você confere alguns dos pontos destacados pelo especialista:

Por que os adolescentes são um público que pede atenção quando o assunto é o uso de drogas?
Na adolescência, o córtex e o córtex pré-frontal, áreas responsáveis pelo planejamento e tomada de decisões, ainda não estão totalmente formados. Isso explica as oscilações de humor, a impulsividade, as dificuldades de planejar ações e de prever riscos. O cérebro também possui um “sistema de recompensas”, que libera dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. Na adolescência, essa região está muito ativa, fazendo com que, em uma avaliação de risco versus recompensa, o jovem opte pelo prazer, sem medir as consequências da decisão.

Qual a relação entre o cérebro e o vício?
Toda vez que fazemos algo que nos dá prazer, ativamos essa região do cérebro que mencionei acima, o “sistema de recompensas”. Ela tem uma relação íntima com a sobrevivência do indivíduo: quando comemos, por exemplo, a zona é ativada, reforçando o nosso desejo de continuar nos alimentando e mantendo o nosso corpo nutrido. Isso acontece em todas as situações que nos dão essa sensação de preenchimento. Com as drogas psicoativas, a atuação nessa região é muito mais intensa. Quando exposto ao consumo cada vez mais frequente das drogas, em busca desse “bem-estar”, o nosso corpo começa a se tornar tolerante à substância, exigindo mais repetições e doses maiores. Na ausência disso, surgem os quadros de abstinência. É isso o que faz com que o vício surja: entramos nesse ciclo de consumo pela sensação de prazer proporcionada e para aliviar os quadros negativos impostos pela falta da droga.

Quais os prejuízos que o uso de drogas pode causar aos adolescentes?
Existem alguns dados importantes. Um adolescente que usa maconha tem até sete vezes mais chance de se tornar um adulto dependente da droga, comparado com alguém que iniciou o uso após a idade adulta. Como o cérebro ainda está em formação, a chance de desenvolver transtornos mentais como ansiedade, depressão e psicose aumenta em quatro vezes. Apesar disso, a droga que mais mata os adolescentes é o álcool, seja por decorrência da violência, acidentes ou intoxicação grave, o chamado coma alcoólico.

Como o tema deve ser abordado em casa? Existe uma idade certa para essa conversa?
É importante falarmos desde cedo sobre o assunto. Não existe uma idade indicada, mas acredito que por volta dos 9 anos já deva ser iniciado o diálogo — sempre adaptado para a linguagem da criança. Ter várias conversas curtas, aproveitando as oportunidades conforme elas vão surgindo, é uma estratégia mais eficaz do que ter uma única conversa longa e tensa, com dia e hora marcados. Além disso, é fundamental manter o canal sempre aberto.

Existem estratégias de prevenção? Quais?
Terrorismo não funciona. Adolescentes sentem necessidade de pertencer a algum grupo. Então, quando justificativas como “mas todo mundo bebe” chegarem, esteja pronto para mostrar que “nem todo mundo”, incentive essa análise e mostre exemplos. Relações familiares afetivas, o incentivo ao esporte, às aulas de música ou cursos de desenvolvimento, ajudam os jovens a se ocupar e ter um plano para o futuro. O monitoramento parental de forma amigável e o estabelecimento de normas claras para os comportamentos sociais também são benéficos.

Caso a família descubra que o jovem fez/faz uso de alguma substância, qual o melhor jeito de lidar com a situação?
Em primeiro lugar, não se desesperar. Podemos estar diante de uma situação de experimentação, que é frequente e não necessariamente um problema grave. O segundo ponto é conversar muito, mas evitando o tom autoritário. Explique, pesquise, entenda a motivação do jovem para o uso. É o grupo? É o tédio? Procure ajudá-lo a preencher, de forma saudável, o vazio que o fez procurar pela droga. Em alguns casos, há um membro da família com quem o jovem se abre mais: peça ajuda para essa pessoa. Se perceber que o uso está resultando em prejuízos e que, mesmo assim, o jovem não considera parar, é importante que seja realizado um acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico. Por vezes, vale, ainda buscar, o suporte de um terapeuta familiar.