Por Adriana Costa
* Texto originalmente publicado no Blog do Estadão

Muito se tem escrito sobre a escuta ativa nas escolas e sobre a importância de ouvir nossos adolescentes. Quando um aluno está na escola, ele é um todo, traz sua história, seus sentimentos, os desafios que está enfrentando. Escutar o aluno significa possibilitar a expressão dessas vivências, reconhecê-las e valorizá-las.

O aluno não é só as notas que obtém. É preciso ver o avesso, dar escuta para que ele se manifeste e ter olhos de ver o indivíduo por inteiro, não só como estudante que renderá um boletim. Assim como todos nós, o aluno é um aprendiz da vida. Um dos pilares da educação da Unesco, “Aprender a Ser”, significa que a escola deve possibilitar o desenvolvimento das potencialidades de cada um, o fortalecimento da personalidade do indivíduo de forma autônoma e com responsabilidade.

Saber ouvir o jovem é importante para que ele se sinta valorizado. O adolescente tem atitudes questionadoras na escola, nem sempre aceita essa escuta e prefere se comunicar com seus pares. Isso é ótimo, os amigos darão essa escuta.

Mas a escola pode dar suporte nesta fase repleta de desafios se souber dar a escuta e mostrar ao jovem que ali é seu lugar de pertencimento. Mais do que apenas ouvir, o colégio deve demonstrar interesse, vontade de ouvir o que eles têm para dizer. Essa é a essência do vínculo educador-aluno.

Rodas de conversa, assembleia, encontros com o educador que tem maior vínculo com o jovem, formação de grupos de auto-ajuda, são maneiras que o Colégio Pentágono encontrou para fornecer essa escuta ativa. Sempre atuando sem julgamentos, sem críticas aos pensamentos e opiniões. Mostrar disponibilidade e tempo para ouví-los.

Mas não é suficiente, é preciso olhar para aquilo que não é dito, que está presente, mas está oculto, escondido.

Nossos jovens que estão enfrentando dificuldades emocionais, agravadas pelas consequências socioemocionais da pandemia. Muitas vezes são questões que causam sofrimento e interferem no rendimento acadêmico.

Para auxiliar, o Colégio também ouviu e percebeu o jovem de uma maneira diferente. Com inspiração no formulário realizado pelo PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, tradução de Programme for International Student Assessment) para estudantes que fizeram esse exame, a Equipe Pedagógica elaborou um formulário aplicado do 6º ano à 2ª série do Ensino Médio. As questões envolviam preferências, dificuldades, percepções de bullying, satisfação com a vida. Para as respostas, havia 4 alternativas com gradação, em uma série de palavras que indicava a intensidade que sentiam para cada situação proposta.

A análise das respostas nos deu luz para novos encaminhamentos às questões coletivas das classes e também às individuais. Em alguns jovens, a reflexão realizada ao responder esse formulário proporcionou o autoconhecimento e a identificação de suas emoções e mesmo a promoção de escolhas.

Aos educadores, resta a reflexão se ainda são válidas as palavras do escritor brasileiro Rubem Alves, falecido em 2014, em seu texto Escutatória: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.”

Adriana Giorgi Costa é Orientadora Educacional da Unidade Alphaville do Colégio Pentágono