Por Luiz Fernando Proença
* Texto originalmente publicado no Blog do Estadão

Na adolescência, que estabeleceremos aqui entre 12 e 18 anos, o aumento do tempo frente às telas aumenta bastante, grande parte em razão da popularização dos smartphones. O Digital 2021 Global Overview Report apresentou que a média, entre adolescentes, é de permanecer aproximadamente oito horas diárias fixados na tela dos seus celulares – e este tempo é proporcionalmente maior se pensarmos somente na quantidade de horas que permanecemos acordados. Segundo o relatório tendências das mídias sociais em 2022, a rede que mais crescerá nos próximos anos é o Tik-tok, justamente aquela que tem como público alvo a atual geração de adolescentes.

Uma vez que a nossa identidade se constitui a partir daquilo que nós fazemos, com quem nos relacionamos e em que pensamos, estes dados nos fazem refletir uma série de questões mas, principalmente, sobre como estão sendo construídas essas personalidades, esses indivíduos? Ou seja, estando tantas horas e quase ininterruptamente plugados nas redes sociais, como elas estão marcando a forma com que aqueles adolescentes estão crescendo? A que tipo de pensamento, de comportamento lhes é induzido? 

E entre diversos modos de se abordar o problema, um que chama a atenção é a questão da autoimagem. Isto é, de como, a partir do uso intensivo de redes sociais, esses adolescentes criaram a imagem deles mesmos, já que aquelas estão cada vez mais servindo de referência para o processo de elaboração da imagem de si. 

No Colégio Pentágono, “redes sociais e autoimagem” aparecem, por exemplo, como temas a serem trabalhados com as turmas de 7º e 8º ano  dos Anos Finais no Projeto de Vida e com a 1ª série do Ensino Médio no Projete-se – ambas disciplinas têm o objetivo de orientar os alunos em suas trajetórias escolares e necessidades relacionadas à vida, inclusive fora da escola. 

Com as turmas de sétimo ano, as redes sociais são vistas a partir do olhar da validade das ações nesses canais virtuais. Quer dizer, as redes sociais também possuem regras, tal como na vida offline. Nestas aulas, que são orientadas para mostrar o que podemos chamar de cidadania digital, aparecem questões de quem faz as regras, qual a identidade nas redes sociais, quais são as responsabilidades, entre outras. A família é também um tema importante e que, por vezes, aparece nestas dinâmicas. A diferença da educação familiar de cada aluno aparece no modo como respondem essas questões. Nesse sentido, se inicia um rico debate, uma vez que a família é a origem da maioria de nossas crenças, valores, comportamentos etc.  

No curso do 8° ano é enviado um formulário particular com perguntas acerca de fatores que se relacionam com a influência das redes sociais na autoimagem. Mais do que fazer uma análise quantitativa, é desenvolvida uma discussão sobre as próprias questões do formulário e sobre o que afeta determinadas respostas. Esse movimento individual e coletivo se mostra como uma estratégia simples, mas importante para gerar auto-reflexão sobre o que os motivou a determinadas respostas e sem precisar expor a intimidade perante os demais.

Já na disciplina de Projete-se, da 1ª série do Ensino Médio, a influência das redes sociais na constituição da autoimagem aparece na primeira etapa do curso, quando são feitas diversas atividades ligadas a questões de autoconhecimento. Por exemplo, por meio do conhecido gráfico Roda da Vida, os adolescentes têm a oportunidade de identificar e compartilhar qual é o peso da influência dos outros (redes sociais) nas suas escolhas e desejos (como quero ser, quem eu quero ser?).

É um desafio atual, portanto, para a educação é importante incluir a vivência deste novo modo de vida no planejamento pedagógico. É inegável que as redes sociais são ambientes novos – e irrestritos – onde as próximas gerações irão ocupar e estão, assim, cada vez mais se tornando paradigma sobre valores, padrões de comportamento, formas de pensamento, de julgamento e de sentimento. A escola tem o papel de olhar para esse mundo digital e orientar os alunos sobre como usá-lo da melhor forma, tanto pessoal como profissionalmente.  

*Luiz Fernando Proença é Orientador Educacional do Ensino Médio e Professor de Projeto de Vida dos Anos Finais da Unidade Perdizes do Colégio Pentágono