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22/02/2017

As neurociências e a adolescência: um olhar cuidadoso sobre uma época de ascendência

Imagine um(a) pai/mãe que acorda um dia e percebe que aquela criatura fofinha e companheirona que criou desde o seu nascimento não o vê e não o trata mais como antes, transformando-se em um ser com vontades diferentes e cheio de ímpetos. Começa aí, para muitos, um pesadelo que não parece ter mais fim: a adolescência.

Vamos por partes. Por que pesadelo? Porque filhos não vêm com manual de instruções, todos sabem disso. Quando temos um parente por perto que pode nos aconselhar, menos mal. Mas, ainda assim, ter filhos adolescentes é matar um leão por dia (ou mais!). Agora imagina uma sala cheia deles, uma manhã inteira (e, também, algumas tardes), cinco dias por semana, em uma média de 200 dias por ano?

Imaginou? Identificou-se? Pois é, sendo pai ou professor, é uma época difícil, não? Nem tanto. Com a orientação correta e o melhor exemplo dado, esse tempo de transição pode se tornar um dos mais memoráveis da vida.

O estudo sobre o cérebro adolescente foi uma área negligenciada até mais ou menos uma década atrás, pois grande parte dos investimentos feitos nesse departamento era investida de um lado em pesquisas do desenvolvimento do cérebro dos recém-nascidos e das crianças e, do outro, das doenças do cérebro idoso, especialmente no mal de Alzheimer.

Primeiro, vamos entender um pouco do cérebro de um adolescente. A adolescência é um período de organização cerebral. As neurociências podem nos fornecer todas as ferramentas de como esse órgão tão complexo funciona em uma época de transformação da vida de criança à vida adulta. Vamos aprender alguns dados sobre a adolescência e no que acarreta cada um deles:

1. O cérebro adquire, nessa época, a capa final de mielina nos neurônios.

Há uma condução mais rápida e eficiente dos impulsos elétricos, portanto, surge o raciocínio abstrato e o questionamento cada vez maior das coisas, sendo capaz de mostrar uma aprendizagem fantástica e uma estimulação assombrosa. Não é à toa que esse é o grande período de querer saber o porquê das coisas serem de um jeito e não do outro, o porquê das coisas serem tão injustas, e daí vem a vontade de mudar o rumo de tudo, transformar o mundo e buscar sua identidade em uma sociedade tão plural e desigual.

E aí vem o nosso papel como pais e professores. Conversar, debater, respeitar a opinião, expor dados e realidade, concordar ou discordar mostrando os porquês. Para os adolescentes, a reputação, o orgulho e sua posição no meio social e familiar são muito importantes e eles nem sempre conseguem ter um olhar autocrítico e fazer as mudanças necessárias. Cabe a quem, então, mostrar o caminho? Ah, e também vale sempre o conselho do “conte até dez” antes de dizer alguma coisa de que venha a se arrepender depois.

2. As habilidades motoras se cristalizam e a taxa de crescimento é muito rápida e desigual.

O desajeitado e estabanado se apresenta! Levante a mão aí se você nunca, em momento algum, se sentiu um alien quando viveu nesse período. Rosto inchado, braços maiores que as pernas, magreza extrema, corte de cabelo esquisito, roupas desencontradas, pés e mãos enormes. Com toda essa estranheza, vem a vontade de mudar, e essa vontade nem sempre condiz com aquela dos pais. Desde piercing, tatuagem, estilos de roupas e cabelos dos mais inusitados até operações plásticas e bodmod (modificação corporal através da inserção de objetos no corpo ou de remoção de partes do corpo).

Como atuamos nessa situação? No caso de estilo pessoal, podemos conversar e tentar entender do que eles gostam. Passear no shopping ou na rua e sempre perguntar sobre os seus gostos. Dizer o que você acha que combina com eles às vezes ajuda, podendo, assim, fazer com que eles aprendam a buscar a sua verdadeira identidade. Um espelho em casa sempre ajuda também, assim eles vão entendendo melhor os seus corpos. E, claro, a prática de esportes tem um papel importantíssimo na estruturação física e mental.

Quanto a piercings e tatuagens, vai da cultura familiar de cada um. O importante é dialogar e não ridicularizar, como já disse antes aqui. Agora, quanto a plásticas desnecessárias e bodmod, o ideal seria procurar a ajuda de um profissional na área de Psicologia ou até Psiquiatria, dependendo do caso, para tentar entender de onde vem essa necessidade.

3. As regiões pré-frontais do cérebro amadurecem.

É hora da inserção na sociedade e do aprendizado social, das tomadas de decisões, portanto, bye-bye saia da mãe! Chegou a hora de abandonar a segurança da casa e buscar aventuras nas ruas do bairro, nas noitadas com os amigos, nas baladas. É hora de procurar sua turma, entender o mundo do ponto de vista de estranhos e de si mesmo, de encontrar parceiros sexuais.

Chocante, tenho que concordar. O garotinho meigo e a princesinha de todos agora só querem saber de sair, de se divertir, encontrar respostas na companhia de outras pessoas. É desesperador para muitos, e a simples ideia disso ocorrer embrulha o estômago de qualquer pai ou mãe coruja.

Mas, o que fazer para que essa mudança não se torne um desastre total? Diálogo, claro, e também aprender a negociar essa transição. Assumir de uma vez por todas que os criamos para o mundo, e só os teremos de volta se soubermos ceder e aceitar que eles podem fazer o melhor deles nessa transição. Se você se mostrar esquentado o tempo todo, ou desorganizado em seus pensamentos ao conversar com eles, perderá sua credibilidade e eles acabarão procurando outra figura na qual se espelhar. E não é isso o que desejamos. Lembra o conselho do “conte até dez”?

Os lobos frontais do cérebro (responsáveis pela avaliação de situações, tomadas de decisões e ponderação dos atos) são os últimos a se desenvolverem, então, é por isso que nós, adultos, precisamos ser os lobos frontais dos adolescentes até eles terem os seus plenamente formados.

4. A glândula pituitária produz o hormônio do crescimento e as gonadotrofinas.

Dá-se início aqui à sexualidade e, de carona, vem a preferência sexual. Sentiu um arrepio correndo por sua espinha agora? De novo, o diálogo e o exemplo sempre representam um papel importante na abordagem desses assuntos. Estamos no século XXI e tem gente que ainda acha que a repressão é o melhor remédio. Não adianta. Não confundamos repressão com o fato de haver consequência para certas escolhas. É claro que sempre existe a situação de colocar de castigo por causa de algum acordo que foi quebrado, mas repressão?

Vivemos numa época de discernimento, esclarecimento e conhecimento. Ora, se não pudermos usar essas ferramentas, o que usaremos então? O diálogo mais uma vez toma o papel de solucionador de problemas no período da adolescência. Não custa nada sentar com eles e ter uma conversa franca. Mostrar para eles as consequências de uma gravidez não planejada ou da aquisição de doenças sexualmente transmissíveis é primordial para que não tenhamos que lidar com uma situação que mudará a rotina de vida não só deles, mas de todos os familiares no futuro.

Cabe aqui expor outro assunto delicado que merece uma atenção especial: a preferência sexual. Cada vez mais vemos jovens optando por uma relação que não seja a de um homem com uma mulher. Fala-se muito em homossexualidade, bissexualidade, plurissexualidade, identidade de gêneros, transgêneros. E a lista não para por aí. E muitos de nós, que crescemos em uma sociedade ultrarreligiosa, moralista, repressora e tradicional, ficamos perdidos em meio a tantos termos e com medo de que uma situação dessas chegue até a porta de nossas casas.

E aí eu pergunto: o que você faria se o seu filhão ou a sua princesa dissesse que gosta de alguém do mesmo sexo? Ou que desejaria mudar de sexo? Cada família tem sua cultura (friso novamente), mas imagine agora que, somado a isso, existe o estresse de ter que lidar com isso na rua e na escola, e o fato de haver a vulnerabilidade a vícios e a busca de riscos que vêm com a adolescência? O que poderia acontecer? Sim, o pior. Nesse momento, o filhão ou a princesa pode se perder por completo em um furacão de problemas sem hora para acabar. O fato é que ele ou ela sempre serão o filhão ou a princesa, só que agora tomaram uma decisão, para todos, difícil de engolir. A decisão foi tomada e não há como consertar isso, apenas tentar entender como nosso papel se encaixa nisso tudo daqui em diante. Sim, diálogo mais uma vez.

5. O sistema de recompensas do cérebro passa por grandes mudanças: o prazer agora só é encontrado através do radical, do exagero, do diferente, do proibido.

Bem, como podemos julgar isso? Nosso cérebro é programado para nos proporcionar bem-estar e saciedade, e nos avisa o tempo todo quando precisamos de água, de nutrientes e de movimentos que nos deem prazer, como exercícios físicos, sexo e sono tranquilo. Nosso sistema de recompensas do cérebro (um conjunto de estruturas que compõem o sistema límbico) demanda por essas situações de prazer o tempo todo, e, na adolescência, ele simplesmente embota, fazendo com que o tédio se instale  e a busca pelo bem-estar venha de uma maneira relativamente exagerada – vide os rachas no trânsito, as bebedeiras em festas que sempre acabam no hospital, o famigerado uso de entorpecentes, a exploração de seu próprio corpo e do corpo do outro, até mesmo coisas mais banais, como ouvir música em alto volume e se entupir de comida e chocolate.

É importante ressaltar que aqui há a vulnerabilidade ao vício, visto que esse exagero na busca pelo prazer pode levar ao exagero dessa mesma busca. E falemos, então, da solução para esses problemas: gritar, deixar de castigo e punir o tempo todo? Bem, acho que não. Devemos tentar entrar na cabeça desse(a) filho(a)/aluno(a) e nos colocarmos no lugar dele(a). Perceber que sempre há uma luta interna ocorrendo e que quase sempre podemos ajudar. O juízo moralista, a ridicularização, a reprovação, o desprezo e a falta de amor e carinho somente pavimentam um caminho de ódio e angústia, muitas vezes, sem volta. E o melhor que podemos fazer é sempre estar ao lado deles (nem sempre do lado deles) e orientá-los da melhor maneira possível, mostrando que o mundo é um lugar de escolhas e, também, como fazê-las para se tornarem as melhores versões de si mesmo.

Bem, tendo exposto todos esses fatos e mudanças na vida de um adolescente, agora gostaria de perguntar: temos tratado esses indivíduos em formação da devida maneira, escutado seus questionamentos com o devido respeito, dialogado com todo o carinho que merecem? E na sala de aula, temos olhado para eles como eles realmente são?

Nós, do Colégio Pentágono, procuramos sempre levar esses fatos  sobre as mudanças na adolescência em consideração, mostrando, com respeito aos nossos alunos, as escolhas e as consequências de cada uma, sendo na sala de aula ou na vida de cada um. A orientação e o diálogo fazem parte de nossa rotina e sempre aprendemos novos caminhos com cada nova situação. É importante para nós que os nossos alunos se formem como cidadãos de bem e felizes com suas escolhas. E, mesmo se alguém ainda não tiver encontrado o seu caminho, que, pelo menos, tenhamos plantado uma semente em seus corações.

Palavra do dia: diálogo! (E não só do dia de hoje…)

Fernando Marassi
Professor de Inglês do Ensino Fundamental II e Ensino Médio do Colégio Pentágono